Novo Texto – Ano do Rato, ano de medo?

Por André Lacroce

 

Este ano de 2020, número 4.717 segundo o calendário antigo taoísta, é chamado de Rato de Metal. Esse calendário é fruto de 60 combinações entre tipos de energias do Céu, chamados de Troncos Celestes, e tipos de energias da Terra, chamados de Ramos Terrestres. No caso, o Metal seria o Tronco e o Rato seria o Ramo. O Rato pela astrologia chinesa é o primeiro Ramo de doze outros. Ele representa o início de um novo período de doze anos. Geralmente quando o Rato aparece novos ciclos se iniciam e velhos ciclos se encerram. Seu elemento é a Água.

Na combinação entre Metal e Água, o primeiro alimenta o segundo. Metal aqui está acima, vem do Céu. Representa a justiça, a força do corte e o controle, como se fosse a utilização de uma grande espada. É uma figura de autoridade. A Água que está abaixo, representada pelo Rato, é algo misterioso, oculto, a astúcia, a fácil adaptação, os segredos, aquilo que age fora do alcance do olhar. Tenta-se pegar para trazê-lo à luz, mas escorrega fácil das mãos de volta para o invisível.

Por isso, este ano é caracterizado pela força do Ramo da Água no mundo todo. Coisas invisíveis, misteriosas, astuciosas ganham força neste período. Não é apenas a analogia a um vírus, mas pode ser qualquer coisa que se mova ocultamente. Como um segredo guardado, uma ação da natureza ou humana, uma segunda intenção, uma doença, um desejo, uma organização secreta, e especialmente para o presente texto uma emoção atrelada à Água: o MEDO. Este é um ano que naturalmente os nossos medos se afloram. Medo de qualquer ordem.

Pelo lado do Metal este ano, há uma tendência do uso da força e excesso de controle quando o Rato exerce sua influência. Esse Ramo de Água na nossa vida pode ser qualquer coisa desconhecida. Portanto, uma reação natural neste ano é de tentar domar o desconhecido a qualquer custo com o uso da espada. Porém, existe o risco de perdermos o controle, perdermos as forças, e até a própria espada, que representa as nossas ferramentas, recursos, a justiça e a capacidade de manter a ordem e a retidão. A sinuosidade da Água pode levar embora a nossa “espada”, podemos perder o timing do uso correto da força e dar espadadas na Água sem resultado nenhum. E isso, pode gerar mais medo ainda.

Nós temos um instinto de autopreservação. É natural nos afastarmos daquilo que nos assusta ou daquilo que possa nos fazer mal. Nadar na água de um rio que não conhecemos, entrar em contato com algo que possa ser venenoso ou visitar uma casa desconhecida que está abandonada podem ser exemplos óbvios. Mas e quanto aos medos que nem sabemos que temos? Medos desconhecidos que vagam entre nosso consciente e inconsciente? E se eles viessem à tona de uma só vez? No caso do atual cenário, o medo tomou uma forma e um nome. E a peculiaridade é que este medo não está num local só do qual podemos simplesmente nos afastar e evitar. Ele está em toda parte, dentro e fora de nós, sem fronteiras: o AR. Como se esconder do Ar?

Se observarmos o ideograma Vento em chinês, o FENG de Feng Shui, vemos que há um traço parecido com um chapéu, fazendo uma cobertura, o que pode indicar o movimento do ar e dentro há um outro elemento gráfico. Esse elemento pode ser interpretado como um organismo estranho sendo carregado pelo vento. Não é por menos que a ideia de que muitas doenças eram trazidas pelo vento fazia parte já da linguagem chinesa. Proteger-se do vento era também se proteger de muitos tipos de doenças estranhas e desconhecidas. O que levou a Medicina Tradicional Chinesa a observar atentamente os efeitos para a saúde das inúmeras possibilidade da exposição humana ao vento. Agregando o conhecimento também às próprias técnicas do Feng Shui Tradicional.

Do ponto de vista da Filosofia Taoista quando estamos vivendo um período de incertezas que geram medo o antídoto natural em que devemos nos apoiar é a virtude oposta ao medo: a Sabedoria. O simbolismo da Água tem então um lado Yin negativo associado ao Medo e um Yang positivo associado à virtude da Sabedoria. Os mestres antigos ao observarem a água, perceberam a correlação com o Sábio. A água pode se adaptar a qualquer tipo de forma, terreno ou estado. Pode ir da condição mais ampla a mais limitada. Demonstra humildade e inteligência, e age conforme o cenário se apresenta. Percorre longas distâncias pelo ar, terra e a abaixo da terra cumprindo seu papel na natureza.

Muitos sábios taoistas eram conhecidos por serem cautelosos e bons estrategistas. Por isso não caiam em armadilhas e conseguiam prever os resultados possíveis das situações que apareciam. Mantinham a calma e a tranquilidade em situações de dificuldade, pois assim era possível discernir melhor e evitar decisões impulsivas. Eram reservados e humildes, assim podiam transitar por ambientes benéficos e hostis sem criar inimigos ou situações de risco. Falavam o suficiente, assim não gastavam desnecessariamente sua energia e não caiam na cilada de “falar demais”.

Por este motivo, a sabedoria envolve a capacidade de adaptação; facilidade em nos transformar; sermos cauteloso e pacientes para avaliar antes de agir; fluir no mundo como a água. Para isso, o exercício constante de entender a nossa natureza se faz necessário. Compreender nossa face visível Yang e invisível Yin. O medo muitas vezes nos pega de surpresa por que não conhecemos de fato quem somos. Nossos potenciais, talentos, gostos, limites, pontos fracos, traumas, desejos etc. Dai quando o medo emerge, aumenta-se a chance de pularmos de cabeça impulsivamente ou ficarmos congelados e perdermos a chance de responder sabiamente às situações. Muitas oportunidades são mal aproveitadas desta forma.

Uma das ferramentas mais eficientes de autoconhecimento e autocontrole que temos disponível hoje no mundo todo é a meditação. Meditar, não importa a técnica, desde que seja séria, ajuda a nos conhecer melhor. Não só a entender melhor o que já sabemos sobre nós mesmos, mas a conhecer aquilo que não sabemos. Meditar ajuda a organizar o nosso ambiente interno e a entrar em contato com cada elemento que nos compõe e que faz parte da nossa história. Dai nos auxilia a compreender melhor nossa história. Cada vez que sentamos para meditar, uma transformação acontece (física, emocional e energética). Algo que estava desencaixado se encaixa, algo que estava sobrando se vai, algo que estava sem uso é ativado, algo que estava rondando aparece. Por isso que depois de 100 vezes sentando para meditar muitas pessoas desistem desse caminho, pois coisas mais profundas nos porões da alma passam a vir à luz. E esse processo não é nem um pouco fácil. No entanto, degrau em degrau, camada a camada, vamos ampliando e refinando a consciência do nosso universo interno e dai, só dai, do universo externo.

Mais do que controle de ansiedade e relaxamento, meditar pode ser uma das chaves para abrir as portas que fecham a nossa visão e nos mantem presos num mundo de medo e ilusão. Seja neste ano do Rato de Metal, seja em qualquer outro. Como Sun Zi (mestre taoista estrategista autor do clássico “A Arte da Guerra”) escreveu:

“Aquele que tem conhecimento de si e do inimigo vencerá cem vezes em cem combates; aquele que conhece o inimigo mas não a si mesmo, tem a chance de ter uma vitória e uma derrota; aquele que não entende nem de si e nem do inimigo, perderá todas as suas batalhas”.

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