As Virtudes do Caminho

No Taoísmo, Lao Tzu deixou para nós os três tesouros. Não digo sobre o Shen, Qi e Jing, mas digo sobre as virtudes. A virtude da simplicidade, da afetividade e da humildade. Isso norteia praticamente toda a conduta do taoista e dá os parâmetros do que é necessário para alguém que quer se desenvolver dentro de um caminho espiritual precisa ter. Seja qual for o caminho.

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Ser simples não é ser ignorante e carente de bens materiais ou mendigar como um monge eremita vagando pelas cidades. Ser simples é basear a vida em poucos conceitos. Ao observar e vivenciar as coisas com base em conceitos simples, como claro / escuro, quente /frio, rápido/ lento, o mundo fica mais transparente e não caímos facilmente nas armadilhas das aparências e dos julgamentos equivocados por emoções confusas. Começamos a ver as coisas mais próximas do que são.

Ter afetividade não é ser extremamente aberto ao mundo e caridoso com tudo e todos em todos os momentos. Não é dizer sim para tudo nos colocando em situação de desequilíbrio e exaustão. Mas é ter empatia pelo outro, nos livrar das amarras mentais e emocionais que bloqueiam nossa relação saudável com o mundo. De acordo com Lao Tzu, é fazer do nosso coração o coração do povo. Não nos prendermos de forma mesquinha a situações individuais sem perceber o todo. Quando a nossa consciência se expande o nosso coração também se expande e se esvazia gradualmente das emoções negativas, traumas e memórias negativas. Nossa capacidade de enxergar o outro aumenta naturalmente. Daí, começamos a não competir mais com o mundo e ver de forma automática o mundo como mal e cruel. A fé na bondade do mundo é resgatada.

Ser humilde não é ser passivo e benevolente em tudo e ficar à mercê dos movimentos do mundo como alguém sem vontade própria. É na verdade cumprir o destino de forma ativa e plena, porém de forma polida, discreta e agindo, de acordo com Lao Tzu, como hóspede em vez de anfitrião. Quando criamos inimigos ou ficamos muito em evidência durante nossa jornada aumentamos o risco da nossa realização. Quando invadimos o espaço do outro, ou ficamos muito duros em relação aos conceitos de certo e errado, vamos enrijecendo e criando amarras. O caráter vai se moldando e a sintonia da arrogância, do fanatismo e da inflexibilidade vai se cristalizando. Quando nos damos por conta, queremos que o mundo gire em torno das nossas vontades. O problema sempre está no outro e passamos a transferir a responsabilidade do que nos acontece mais para fora do que para dentro.

O Mestre Hamilton Fonseca Filho, da Sociedade Taoista do Brasil, disse uma vez que as pessoas se preocupam muito com o que elas atraem, mas não pelo o que elas estão imanando. Se no nosso coração há inveja, vamos por sintonia atrair pessoas invejosas. Se tivermos paz no coração, vamos atrair pessoas tranquilas e momentos de paz. Há coisas que não se controla e devem ser aceitas, enfrentadas e depois esquecidas. A humildade nos permite ter mais espaço e tranquilidade para acolher as diversas circunstâncias da vida e não nos incitar a ser o primeiro em tudo como se a vida fosse uma grande competição. Sem julgar se merecemos ou não, se é fácil ou difícil, se justo ou injusto. Simplesmente realiza a obra e abandona o corpo, como Lao Tzu falou.

Cultivar os três tesouros é a base das virtudes taoistas para cultivar um caminho espiritual consistente no mundo.

André Lacroce

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